Artigo

Ano 9 - número 34

Julho - Setembro 2016

por Colin Butterfield

Colin Butterfield é engenheiro de produção pela Boston University. Trabalha e mora em São Paulo e é membro do Movimento Vem Pra Rua.

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O Movimento Vem Pra Rua e os 18 Meses que Mudaram o Brasil

É um lugar-comum dizer que vivemos tempos em que transformações dos mais variados tipos ocorrem em grande velocidade. A globalização e a revolução tecnológica nos ensinaram isso na prática. O mundo permanentemente conectado – os posts políticos no Facebook, o poder de ferramentas como WhatsApp, as crises de mercado interligadas, os 140 caracteres sobre qualquer coisa no Twitter, as notícias minuto a minuto e nossas fotos no Instagram – permite que, em certo sentido, estejamos em toda parte o tempo todo. São mudanças que começaram nos grandes mapas da política e que vieram parar na palma de nossas mãos, em nossos smartphones e tablets. Do desaparecimento de imponentes impérios políticos ao surgimento de tremendas oportunidades de desenvolvimento, tudo pode ocorrer em poucos meses hoje em dia. A velha sensação de que os grandes marcos históricos eram produto de longos e demorados processos políticos é hoje uma simples lembrança do passado: as novidades não esperam mais para acontecer; sua hora é agora.

Eu sei disso. O mundo dos negócios exige que todos nós saibamos disso. Simplesmente abrir um jornal ou acompanhar a educação de nossos filhos nos faz saber disso. E mesmo assim, sou obrigado a confessar meu espanto com uma transformação que se deu de modo tão intenso e tão veloz que ninguém previu: a transformação que o Brasil viveu desde outubro de 2014 até maio de 2016. Foram pouco mais de 18 meses, é verdade, mas o fato é que nesses três semestres o Brasil passou por mudanças tão impactantes que nossas opiniões e impressões anteriores acerca da sociedade em que vivemos ficaram obsoletas. Em grande medida, penso eu, isso se deve justamente ao fato de que essas mudanças partiram da sociedade e de algumas poucas instituições prestigiadas e apoiadas pela sociedade.

Foi assim que uma investigação da Polícia Federal, iniciada em Curitiba, tornou-se um marco das aspirações de um novo Brasil. Foi assim que instituições públicas que, em geral, não tinham nenhum apelo midiático e popular se consolidaram como razões de orgulho para os brasileiros. Foi assim que um movimento apartidário e nascido longe dos berços da política tradicional brasileira – o Vem Pra Rua – ganhou as ruas do país, com milhões de cidadãos de todas as classes, de todas as idades.

Talvez minha surpresa com tudo o que aconteceu nesse período seja partilhada pelos leitores desta análise, que é também um depoimento. Talvez não. Independentemente disso, tenho certeza de que muitos se reconhecerão nas ilusões e desilusões, nas convicções e nas frustrações que relato neste texto. Elas são importantes para entendermos o que aconteceu conosco – e também o que ainda está por vir.

 

Origens: a desilusão é  o limite

O Brasil não é para amadores”, segundo uma frase famosa. É verdade. Aquelas dificuldades todas que vemos na política (“por que aprovaram uma lei absurda como essa?”, “como é que aceitam que essas práticas ilegais sejam corriqueiras?”), os entraves todos que enfrentamos para fazer negócios (a burocracia, a irracionalidade e a falta de incentivo) e a sensação permanente de que as mudanças de que necessitamos não chegam nunca comprovam, ao menos em parte, a verdade que vai contida naquela frase. Mas, como todos os brasileiros sabem, não é apenas na política e no governo, nas leis e no mercado de trabalho, que sentimos esse cansaço do inaceitável, essa desilusão das coisas como elas são. Para mim, como para milhares de outros cidadãos, é no nosso dia a dia, na nossa vida cotidiana, mesmo, que o cansaço vira desilusão. E a desilusão é uma espécie de limite.

Afinal, quando percebemos que nossas vidas precisam ser vividas com a sensação de permanente perigo, cercamo-nos de muros cada vez mais altos, aumentamos as tropas de seguranças privadas que nos protegem (quando temos a sorte de poder pagar por isso) e achamos, por algum tempo, que isso é “normal”. Quando não ficamos tranquilos com a ideia de nossos filhos poderem ir à escola ou a qualquer tipo de local público em segurança, usando serviços de transporte público ou simplesmente caminhando pelas ruas em que vivem, passamos a achar normal não termos direito a isso. Talvez tenha sido assim que, pouco a pouco, acabamos achando normal as gritantes diferenças sociais no nosso país. Talvez tenha sido assim que, pouco a pouco, ficamos indiferentes às grandes injustiças que testemunhamos dia após dia, ano após ano, em um país tão cheio de possibilidades. Talvez, enfim, tenha sido assim que nos acostumamos – os que tiveram sorte – a achar que a solução era a “redoma de vidro”: os condomínios cada vez mais fechados, as seguranças cada vez mais reforçadas, os passeios públicos cada vez mais privados.

Nem sempre foi assim. Alguns leitores talvez não se lembrem, mas houve um tempo em que íamos à escola a pé, encontrando os amigos e colegas da vizinhança pelo caminho, sem nenhum medo que não o da lição de casa eventualmente malfeita (havia consequências!). Houve um tempo em que não imaginaríamos perigos em nossas aventuras nas ruas de nossa cidade que não a derrota em uma partida de bete (taco) ou em uma pelada.

Quantos de nós já não perceberam que, assim como abrimos mão de coisas simples e básicas como essas, também fomos aceitando, gradativamente, tornando normais, padrões de convivência que não deveriam nunca ter criado raízes entre nós? Brasileiro que sou, mas filho de pais estrangeiros, posso dar testemunho da importância que certos valores têm ou podem vir a ter na formação de nossos padrões de convivência. Lembro-me bem que meu pai estranhava – e reclamava! – que os vizinhos da nossa casa, num bairro de classe média de uma cidade do interior paulista, varriam suas calçadas sem se importar com a da casa ao lado. “Como você pode ter sua calçada limpa e a calçada vizinha estar horrível?”. Nosso senso de comunidade, aquele sentimento de que fazemos parte de algo maior do que simplesmente nossa existência individual ou familiar, sempre foi muito baixo. O que sempre me pareceu mais grave, no entanto, é o fato de que não deixamos de desenvolver um senso comunitário porque somos individualistas modernos, pensando apenas no bem próprio: as sociedades capitalistas desenvolvidas, Estados Unidos e Inglaterra à frente, sempre souberam combinar, em graus variados, o interesse do indivíduo e o bem da comunidade. No nosso caso, parece-me antes que, por omissão e conformismo, abdicamos do bem próprio e do bem comum e aceitamos apenas o “deixe tudo como está”. Essa atitude nos prejudica como indivíduos e como comunidade.

Chegou um momento em que pensei que minha alternativa a esse estado de coisas seria mudar do Brasil. Deixar o país, simplesmente, e viver onde meus filhos pudessem ir à escola ou sair para trabalhar sem que eu julgasse isso o equivalente a um passeio por um campo minado. Muitos brasileiros cogitam essa possibilidade. Alguns partem, de fato. Outros, não. Eu não parti. Não porque minha desilusão não fosse enorme, mas porque toda desilusão tem um limite, e a minha tinha chegado ao seu. Era chegada a hora de fazer alguma coisa.

 

Despertando  a  sociedade anestesiada

E fizemos. Esse plural é importante, pois assim como eu nunca estive sozinho em minha desilusão ou em minhas cogitações de “exílio”, pois muitos também pensaram ou sentiram as mesmas coisas, também nunca estive sozinho no desejo de efetivamente fazer algo para mudar o Brasil. E o fato de que um número muito expressivo de pessoas estava disposto a fazer alguma coisa foi decisivo para uma grande virada, para uma transformação nos padrões de comportamento político absolutamente espetacular que aconteceu na sociedade brasileira. Se ela vai criar raízes, se será duradoura, isso somente o tempo dirá; que o que ocorreu, no entanto, foi algo totalmente inesperado e positivo, isso é coisa certa.

Falei acima que nossa sociedade parece ter uma queda pela omissão e pelo conformismo. Seja na dimensão política, seja na dimensão de nossa vida pessoal, vamos aceitando condições cada vez mais penosas e absurdos sem protestar, sem agir para mudar as coisas. Essa situação foi se agravando muito nos últimos anos, o que coincidiu com um sentimento generalizado de degradação de nossa sociedade e de parte das nossas instituições. A verdade é que nossa sociedade parecia estar anestesiada.

Se não, como explicar que tenhamos aceitado sem mais os sucessivos e progressivos escândalos de corrupção e má gestão da coisa pública que foram se acumulando ao longo dos anos no Brasil? Não é preciso ter ilusões quanto a um passado ideal, em que os políticos brasileiros eram honestos e puros – isso nunca existiu – para reconhecer que, ao menos em algum nível, o padrão moral dos políticos e dos agentes públicos decaiu. Houve momentos em que uma simples declaração desastrosa, mesmo que não envolvesse nada de ilegal ou de ilegítimo, era suficiente para forçar ministros a se demitirem. Aliás, era um tempo em que ministros pediam, eles mesmos, demissão. Especialmente ao longo dos anos da administração do Partido dos Trabalhadores no governo federal, no entanto, fomos testemunhas e vítimas de esquemas de corrupção que ultrapassaram em muito o ilegal e o ilegítimo, e, mesmo assim, a sociedade brasileira parecia um corpo anestesiado, incapaz de reação.

Basta dizer que passamos por um escândalo como o do Mensalão (2005), chamado às claras pelos ministros do Supremo Tribunal Federal de “quadrilha” e de “organização criminosa”, explicitamente descrito no julgamento do STF como uma ação que visava à subordinação de nossa democracia aos interesses criminosos de um grupo no poder, e não fomos às ruas, não nos mobilizamos como sociedade. Nossa omissão e nosso conformismo eram tais que o mesmo grupo político, a despeito do Mensalão e de inúmeros outros casos de menor escala, mas de mesma natureza, continuou no poder e venceu três eleições consecutivas (2006, 2010 e 2014).

 

Dos pequenos encontros aos grandes eventos          

O ano de 2014 nos guardava surpresas, no entanto. Mais do que as manifestações ocorridas em junho de 2013, que começaram como reivindicações por menores tarifas de transporte público e se transformaram em grandes demonstrações populares de insatisfação com a política e com os governos, foram os sinais que o ano eleitoral trouxe, que garantiram que o despertar de 2013, difuso, vago e mais simbólico do que efetivo, ganhasse corpo, adquirisse massa crítica para se transformar no que viria a ser o Movimento Vem Pra Rua e formasse o pano de fundo das transformações de 2015 e 2016.

O feliz encontro de algumas pessoas, que se aproximaram pelas razões mais aleatórias do mundo, possibilitou o surgimento daquilo que viria a ser o embrião do movimento. Alguns encontros, muitas expectativas compartilhadas, insatisfações semelhantes e muita vontade de mudar o “que estava ali”. Uma unanimidade.

Foi assim que, no dia 7 de outubro de 2014, depois do primeiro turno das eleições presidenciais e diante da real possibilidade de derrotar a continuidade de um governo que mergulhava o Brasil em caos econômico, irracionalidade administrativa e em corrupção colossal, veio a decisão de sair às ruas contra a reeleição de Dilma Rousseff (PT). O evento “Vem Pra Rua Dia 16”, criado no Facebook, denunciava a corrupção – já iam avançadas, então, as investigações da Operação Lava Jato, em Curitiba – e defendia a saudável alternância de poder na política brasileira. Não eram bandeiras inocentes: o que eu estou considerando aqui neste artigo como a grande transformação brasileira nesse curtíssimo espaço de tempo foi justamente a consolidação, na sociedade brasileira, de um sentimento contrário à corrupção. Percebemos que era absolutamente necessário combatê-la na prática; que era uma obrigação de cada um de nós tornar pública nossa rejeição dos corruptos, dos corruptores e dos seus atos; que deveríamos traduzir isso em ações concretas. E, para isso era preciso, entre outras coisas, mudar o poder político.

Ato suprapartidário, mas não apolítico; democrático, mas não aleatório; voluntário e organizado; assim teve início o Vem Pra Rua, em meio a uma tensa campanha eleitoral – que teve direito até à queda de avião e morte de presidenciável, como todos lembramos e lamentamos. No dia 16 de outubro de 2014, o movimento saía às ruas pela primeira vez, o que ocorreu em São Paulo, no Largo da Batata, mas também em Brasília, Belo Horizonte e em Teresina. Firmes em nossa convicção de que as melhores garantias para a continuidade da Operação Lava Jato e do curso da Justiça estavam nas mãos da oposição ao PT, fomos às ruas novamente nos dias 22 e 25 de outubro, antes da fatídica data do segundo turno, em apoio à candidatura oposicionista de Aécio Neves (PSDB) reunindo, ao todo, mais de 60 mil pessoas nas duas datas em São Paulo. Ao todo, as manifestações ocorreram em mais de 240 cidades.

Essas saídas ajudaram a fazer emergir na sociedade brasileira uma nova realidade. Não é verdade que a população não se preocupava com a corrupção, apenas não conseguia canalizar essa preocupação. Não conseguíamos nos mobilizar – foi assim desde 1992 e as passeatas contra o então presidente Fernando Collor –, confirmando o que parecia ser omissão imperdoável. No entanto, quando parcelas das instituições brasileiras deram mostras de que estavam funcionando – a Polícia Federal e o Ministério Público, por exemplo – em favor do povo brasileiro; quando valores como a defesa da ética na política e do fim da impunidade se impuseram como expressão real de cidadãos de todas as classes, não foi difícil perceber que começava ali a grande transformação que varreria o país nos meses seguintes.

 

Derrota eleitoral,  vitória nas  ruas

A eleição de 2014 foi, de fato, vencida pela continuidade de Dilma Rousseff e do PT. E isso representava a continuidade da corrupção sistemática praticada pelo partido que misturava sociedade, governo e Estado com os interesses dos líderes de uma legenda partidária. Mas, o sentimento da sociedade foi outro: apesar de uma parcela da sociedade ter sido escandalosamente vitimada pelo estelionato eleitoral praticado pela campanha governista de Dilma e do PT, apesar de os instrumentos de intimidação e de ameaça aos mais pobres terem sido úteis à candidatura oficial, a verdade é que se não fossem a mentira e os muitos milhões de reais desviados dos cofres públicos que, agora se sabe, irrigaram a campanha do PT, a realidade eleitoral teria sido outra, pois a vontade da sociedade era outra.

A prova desse sentimento novo dissociado da vitória eleitoral do PT aparece já no fato de o Vem Pra Rua ter se mobilizado, com não pouca expressão, no simbólico 15 de novembro de 2014, na Avenida Paulista, para manifestar total apoio às investigações do Petrolão, para exigir a punição dos culpados e para condenar diversas práticas inaceitáveis do governo então reeleito (do uso político dos Correios na campanha até sua aliança com governos autoritários na América Latina).

Quando seria possível imaginar que a sociedade brasileira, que a tudo parecia assistir passivamente, estaria se mobilizando nas redes sociais e nas ruas pouco mais de duas semanas após um segundo turno de eleição presidencial? Quando teríamos imaginado que a sociedade que assistiu ao Mensalão e às três eleições petistas que se seguiram, agora, era capaz de manter um forte interesse no nosso destino político, vigiar os desmandos e desvios dos políticos e, sobretudo, efetivamente fazer alguma coisa? Pois bem: foi o que aconteceu. Os inúmeros grupos de amigos nas redes sociais e de compartilhamento de mensagens, como Facebook, Twitter e WhatsApp, passaram a ser veículo de troca de informações, notícias, links e opiniões sobre política; a sensação de que era preciso manter-se mobilizado, dando continuidade ao que havia acontecido no segundo turno das eleições era clara; o Vem Pra Rua começava a se consolidar nas redes sociais e nas ruas de um modo que seria absolutamente inédito na vida política brasileira.

 

Mega  manifestações

Após inúmeros atos pontuais como um ”faxinaço” na sede da Petrobras, uma vigília na frente do PGR em Brasília, um “panelaço” na frente da casa do Ministro da Justiça, “panelaços” toda vez que a presidente aparecia em rede nacional ou publicamente, organizamos, junto a outros movimentos, como Revoltados On-line e Movimento Brasil Livre, a primeira mega manifestação. Essa novidade tornou-se evidente e inquestionável quando, no dia 15 de março de 2015, com apenas três meses do segundo mandato de Dilma, os brasileiros foram às ruas protestar contra os cada vez mais surpreendentes casos de corrupção que vinham sendo revelados, contra a fraude eleitoral perpetrada pela campanha de Dilma Rousseff e contra a calamidade econômica que vinha se instalando no país aos poucos, e que parecia fugir do controle artificial que o governo mantinha. Somente em São Paulo, foram mais de 1 milhão de pessoas na Avenida Paulista: a maior manifestação política da história do Brasil democrático; a maior demonstração de uma vontade popular desde os comícios da campanha das Diretas Já!, em 1984. Ao todo, mais de 2 milhões de brasileiros foram às ruas, em centenas de cidades de todo o país. O chamado “Vem Pra Rua” acabara de ganhar toda uma nova dimensão, todo um novo significado: a população brasileira demonstrava, assim, que aquela suposta passividade e que aquele suposto conformismo podiam ser vencidos, deixados para trás e substituídos por uma nova consciência crítica, uma nova forma de cidadania.

A novidade, no entanto, não estava apenas na capacidade de mobilização, ou no número de pessoas dispostas a ir às ruas: estava na forma e no conteúdo que marcaram essas mobilizações. Ao longo de 2015, mais três grandes atos ainda ocorreriam, mostrando que a disposição do brasileiro para defender a Operação Lava Jato e as investigações da Justiça brasileira, para combater um governo corrupto e para salvar a nação da bancarrota total era muito mais forte do que se imaginava. Organizações rápidas e espontâneas, muitas delas começando nas redes sociais; conexão com outros movimentos sociais de inclinações políticas diferentes; independência em relação aos partidos políticos e à política tradicional: os grandes números de compartilhamentos de uma postagem no Facebook agora se traduziam em muitos milhares de pessoas nas ruas.

Essa integração das plataformas virtuais das redes sociais com a sociedade viva e pulsante tomando conta das grandes ruas e avenidas do país foi decisiva para que despertássemos da condição anestesiada que descrevi acima. Porém, ainda mais importante para rompermos com o conformismo e com a omissão em face dos descalabros que assolavam o país foi a nossa capacidade de congregar, em um conjunto muito simples de ideias, uma agenda nova para o Brasil.

 

Agenda para o Brasil

Essa crescente participação política somente foi possível graças a diversos fatores. Os avanços da sociedade brasileira com as condenações dos culpados no julgamento do mensalão, os desdobramentos das investigações da Lava Jato, a seriedade do trabalho do juiz Sergio Moro, da equipe de procuradores de Curitiba, da Polícia Federal, as prisões e as primeiras condenações de grandes figurões da política e do meio empresarial envolvidos em escândalos de corrupção foram elementos que contribuíram para uma permanente mobilização da sociedade brasileira no período de outubro de 2014 a abril de 2016. As flagrantes mentiras de Dilma na campanha eleitoral que a reconduziu ao cargo e sua incapacidade total e absoluta para tirar o país da crise que ela e seu partido criaram no país mantiveram o brasileiro atento em sua indignação.

Mas, foi a convicção de que era preciso manifestar essa indignação com a classe política como um todo, a certeza de que era preciso resgatar a esperança que havia sido sequestrada pela corrupção e a necessidade de impor um regime de eficiência e transparência na administração da coisa pública que garantiram que os brasileiros não deixassem mais as ruas até o desfecho que, hoje, conhecemos bem. A rejeição ao governo do PT era maior do que simplesmente uma crítica à corrupção e à ineficácia. Por isso mesmo, era uma rejeição da quase totalidade da classe política. O brasileiro que foi às ruas – e que imensa transformação foi essa! – quer poder viver dignamente do suor do seu trabalho e quer protagonizar a construção de um país próspero. O brasileiro que foi às ruas quer que os serviços públicos prestados pelo Estado tenham qualidade e sejam eficientes, e não acredita mais que para isso ele deva pagar ainda mais impostos.

Quem foi às ruas quer, isso sim, o fim da corrupção que drena o dinheiro público, quer o fim da impunidade que solapa as condições de justiça e quer um Estado eficiente e desinchado – e que grande transformação foi ver a população dizer, sem meias palavras, que quer preservar e estimular a liberdade econômica, o empreendedorismo e a livre iniciativa, verdadeiras fontes geradoras de riqueza! Foi com esse alinhamento de valores que o Vem Pra Rua foi realizando, ao longo dos últimos três semestres, as grandes manifestações que se tornaram símbolo de uma transformação sem igual no cenário político brasileiro: da apatia e da perplexidade às mega manifestações de rua, culminando com o processo de impeachment de Dilma Rousseff.

 

O Impeachment  e o futuro

Eu comecei este artigo dizendo que mesmo diante das mais notáveis e velozes transformações do mundo contemporâneo ainda me espantava com as transformações que tínhamos vivido em pouco mais de 18 meses com o Vem Pra Rua. Foi o tempo necessário para o despertar da sociedade brasileira. Foi o tempo necessário para aglutinar pessoas nas redes sociais e nas ruas, e em escala nunca antes imaginada. Foi o tempo necessário para romper com as falsas polarizações da política partidária brasileira e escolher o nosso lado: o de um Brasil justo, ético e eficiente. Isso tudo já bastaria para que ficássemos surpresos com nossas conquistas, mas fomos além.

Nosso engajamento se traduziu na consolidação do Vem Pra Rua como uma referência na organização da sociedade civil de maneira legítima, espontânea e sempre respeitando a lei, a Constituição e o Estado de Direito. Foi assim que depois da façanha de levar mais de 2 milhões de pessoas à Avenida Paulista, em 15 março de 2015, o Vem Pra Rua, ao lado de outros movimentos, levou mais de 6 milhões, em 13 de março de 2016, na maior manifestação política da sociedade brasileira em toda sua história. As pequenas manifestações que começaram, 18 meses antes, em defesa das investigações do Petrolão, culminaram com o apoio firme e convicto ao pedido de impeachment de Dilma Rousseff, tal como formulado pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr. e Janaína Paschoal. A organização de uma passeata contra a candidatura governista – um simples evento do Facebook criado em 7 de outubro de 2014 – culminou em mais de 6 milhões de pessoas nas ruas do Brasil, em 13 de março deste ano. A mobilização de grupos de WhatsApp que trocavam informações políticas se transformou em uma das mais inovadoras ferramentas tecnológicas na política brasileira: o Mapa do Impeachment (www.mapa.vemprarua.net), site pelo qual o usuário tem acesso a toda sorte de informação sobre cada parlamentar, podendo contatá-lo de diversas formas, exercendo a verdadeira pressão política: a do desejo do eleitor. Exercendo a cidadania.

Deu certo? Pense o leitor nas mobilizações espontâneas que eclodiram em diversas capitais do Brasil, em 16 de março deste ano, quando áudios revelaram que Lula e Dilma tramavam contra a Lava Jato, com a nomeação dele para um ministério. E isso apenas três dias após as maiores manifestações da história do país, lá estavam os brasileiros, novamente, nas ruas, exigindo ética, gritando contra tanta desfaçatez. Considere o leitor a mobilização em centenas de cidades brasileiras para pressionar o Congresso pelo impeachment de Dilma Rousseff. E pense, agora, no Brasil que descrevi no início deste artigo. O Vem Pra Rua foi ou não um veículo decisivo de manifestação da indignação do brasileiro? O brasileiro passou ou não a ser agente da transformação política no Brasil?

Minha resposta só pode ser positiva, como deve ser positivo o nosso espanto, firme nossa indignação e constante nossa vigilância.

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