Artigo

Ano 10 - número 37

Abril - Junho 2017

por Roberto Romano

É nascido em Jaguapitã (PR), integrou a Ordem dos Dominicanos, fez doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales, tendo como orientador Claude Lefort. Publicou livros e artigos sobre a Razão de Estado, a igreja católica e a universidade. Tem como temas favoritos a política, a ética e a estética, sobretudo no século 18 francês. É professor titular aposentado da Unicamp, onde dirigiu 37 teses, entre mestrado e doutoramento. Foi presidente da Comissão de Perícias da Unicamp.

Imprimir

As Hostes Políticas de Edir Macedo

Depois de muito subestimado, Trump acabou eleito presidente dos Estados Unidos da América contra todas as previsões de especialistas, cientistas políticos, comunicólogos, sábios e videntes. Proclamado o resultado, videntes, sábios, comunicólogos, cientistas políticos e especialistas tentam apagar as pegadas erráticas, abrindo um leque de causas para o inesperado desfecho. Inesperado para eles que pensaram ditar a realidade e induziram grande parcela da opinião pública mundial a acreditar em suas verdades.

A vitória de Marcelo Crivella para a Prefeitura do Rio de Janeiro levanta questões sobre a originalidade de sua igreja, a Universal do Reino de Deus. No artigo, é indicada a forma do catolicismo organizacional como um dos elementos de sua baixa numérica e política na sociedade brasileira. Em contrapartida, a estrutura da Universal, ao contrário da católica, valoriza intensamente o leigo, o que potencializa forças políticas antes adormecidas que, somadas ao imenso instrumental da igreja, sobretudo na mídia, ajuda a entender a maré montante do pentecostalismo político de hoje.
O Brasil nasceu católico, mas sua forma jurídica, desde a origem, manteve o controle estatal sobre a vida religiosa. Fomos descobertos no absolutismo, quando o poder estatal disputou com radicalidade a soberania contra o domínio transcendente. Estávamos na era dominada por Maquiavel e pela raison d’État. Naquele tempo, a ética da rota respublica christiana foi posta em questão por teóricos (Maquiavel é apenas um de extensa lista) e governantes. A Reforma traz um complicador a mais nos elos entre mando religioso e civil. Se Lutero radicaliza a ruptura com a autoridade visível da igreja, ele reforça o poder dos príncipes que aderem à nova confissão. João Calvino, apesar da obediência pregada aos crentes diante do mando civil, expõe vias para a radicalização laica e, mesmo, democrática, da ordem política. Não é exagero dizer que boa parte da moderna democracia tem como base a reforma protestante na vertente calvinista.

Sob o Padroado, a Coroa portuguesa faz da Igreja mero departamento do poder civil. No Império não é diferente. Apenas com a República, para a qual contribuiu a Questão Religiosa, o catolicismo tem certa independência para agir no país. Mesmo assim, até meados do século 20, é difícil separar os alvos do Estado e as sendas da Hierarquia. Antes e depois da ditadura getulista, ocorrem conúbios entre “autoridades civis, militares, eclesiásticas”. A meta religiosa reside na conquista do mundo moderno para atraí-lo ao rebanho, num inaudito movimento de centralização, cujo ápice é o Concílio Vaticano 1 e o dogma da infalibilidade papal. Os bispos percebem o Brasil como terra a ser evangelizada. Uma das técnicas para conseguir tal alvo consiste em impor a “soberania espiritual” ao mando secular.

Tensas, as relações entre Igreja e poder civil vivem instantes de afastamento mútuo, mesmo de hostilidade, ou de plena concórdia. Com a ditadura Vargas ela ganha muito, sobretudo no campo do ensino. Boa parte dos curricula oficiais, impostos ao país, foram elaborados por bispos ou acadêmicos a eles unidos. É o caso de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) que molda as planilhas educacionais do Brasil por longas décadas. Tais planilhas sobrevivem à era Vargas, à ditadura de 1964 e mesmo ao governo civil e à Nova República. No período inaugurado pelo golpe de 1964, alguns bispos e leigos resistem ao arbítrio, às torturas e prisões, o que ocasiona choques com o Estado. Mas, não é possível ignorar o acordo antes e após o coup d’État, consagrado em colaboração de hierarcas e autoridades laicas e consignado em documentos oficiais que abençoam o regime de força. Em determinadas situações podemos dizer, sem exagero, que as formas estatais e católicas constituem um todo solidário.

A igreja católica percebe com maior acuidade a perda de sua força social a partir dos anos 50 do século 20. Pensadores como o Padre Júlio Maria e Thales de Azevedo mostram o quanto o catolicismo está longe de controlar grandes massas populares. A proposta de tais acadêmicos e clérigos se encontra no ataque à modernidade, cujos efeitos seriam letais ao mundo religioso tradicional. A tônica seguida liga-se à defesa dos antigos valores, algo comum naqueles anos na intelectualidade católica. A Revista Eclesiástica Brasileira, a Revista Vozes de Petrópolis, praticamente todas as publicações de doutrina e proselitismo insistem na reconquista do mundo perdido para a secularização, a maçonaria, o espiritismo, o positivismo, o liberalismo e, last but not least, o protestantismo. No relativo ao liberalismo, importa notar que um grande inspirador de Carl Schmitt, Juan Donoso Cortés, é publicado pela Editora Vozes, o Ensaio sobre o Catolicismo, o liberalismo e o socialismo, manifesto contra a democracia e as formas seculares de pensamento político. A tônica empregada pela propaganda eclesiástica é a de uma simbiose entre nacionalidade brasileira e igreja católica. Em tal movimento, a palavra definitiva é a do Sumo Pontífice: “A igreja e o Estado devem ser unidos um ao outro como alma e corpo, que constituem no homem um todo natural”.

Não é possível olvidar o papel relevante, direto ou indireto, da LEC (Liga Eleitoral Católica) até meados do século 20. Para ir contra as ameaças modernas, Dom Sebastião Leme instaura a revista A Ordem e o Centro Dom Vital, em boa parte dirigido por Alceu Amoroso Lima. Criada em 1932, a LEC busca afugentar das mentes católicas as candidaturas aos cargos políticos de liberais, maçons, comunistas, socialistas, espíritas, protestantes. A lista de candidatos, afixada nas igrejas e demais espaços religiosos, serve como sinal de ortodoxia e, de outro lado, frouxidão dos renitentes. Em 1962, a LEC assume a denominação de Aliança Eleitoral pela Família. Assim, a atuação dos bispos e leigos católicos, para garantir a hegemonia eclesiástica no Estado, tem muitas faces. A LEC é das mais agressivas, pois ensaia banir da vida pública setores minoritários, numa demonstração cabal de intolerância. Os protestantes sofrem muito com semelhante política de exclusão.

Com o Concilio Vaticano 2 ocorre em parte a mudança de rumos eclesiásticos. Em vez de presa aos muros da tradição, a igreja tenta se abrir ao mundo, vendo nele não um campo de morte, mas terreno a ser preenchido pelos valores cristãos e humanos. Os documentos conciliares, em especial a Constituição Lumen gentium mudam a perspectiva da pastoral e das formas doutrinárias. Não mais pensada como poder que deve enfrentar o mundo com anátemas, a igreja se percebe como peregrina no tempo, cuja orientação seria o Eterno, mas sem descuidar da finitude, das dores e alegrias humanas. É deixada nas sombras do pretérito a reivindicação de “soberania espiritual”, as pretensões de usar o Estado, contra toda a crônica laica que o marca desde o século 16, como instrumentum regni. O Vaticano 2 interrompe, pelo menos provisoriamente, o fluxo de anátemas contra o mundo laico e as formas religiosas que ameaçam o catolicismo.

Ditadura de 1964 enfrenta uma igreja dividida

A forma católica tem uma lógica muito própria, que desafia os mais diferentes pensadores. Carl Schmitt, para descrever tal lógica usa o termo “complexio oppositorum”, porque não é possível atribuir ao todo eclesiástico uma doutrina política única. Sua sabedoria consiste, justamente, em não sucumbir às formações de seitas, cumprindo seu núcleo dirigente (no ápice da hierarquia) a função de acomodar as contradições existentes na ordem interna e externa. Sempre que um setor da igreja se pretende autônomo em relação ao todo, a Hierarquia move correções rápidas que podem ir das admoestações à excomunhão. Após o Vaticano 2 o catolicismo passa por forte desarrazoado sobre sua essência e missão. Sacerdotes aos milhares, perdido o cosmos da tradição tridentina contrária à modernidade, sentem o solo eclesiástico como problemático: nem mais totalmente sagrado, como quer a Contrarreforma, nem secular. As práticas litúrgicas são abaladas, formas costumeiras de piedade abolidas. Os templos perdem esculturas sacras, a reza do terço durante a missa é proibida, novenas e procissões suspensas. Falta ao clero, progressista ou não, saber ou prudência antropológica e de psicologia de massas. O fiel católico passa a viver o sagrado como algo incerto. É dada a partida para a busca de experiências místicas outras, ou simplesmente o abandono das crenças religiosas. A responsabilidade não reside apenas no clero laicizado. Mas, ele é importante para a perda de solidez da fé tradicional católica. Já no Pontificado de Paulo VI, a hierarquia eclesiástica busca moderar o impulso racionalista que toma parte do clero e dos leigos. A Encíclica Humanae vitae (1968) dá o sinal de alarma. Na igreja brasileira, ainda em 1968, surgem os primeiros sinais do “freio” aplicado aos bispos, padres e leigos que radicalizam as teses conciliares. Todo o final do pontificado de Paulo VI é hamletiano: ora pende para o progressismo teológico e pastoral, ora ao conservadorismo centralista da Santa Sé.

A ditadura instaurada em 1964 enfrenta uma igreja dividida entre a maioria dos antístites que apoiam o regime e a minoria que o combate. Padres e leigos radicalizados seguem a letra conciliar, mas tal fato não basta aos mantenedores do poder curial. Após o brevíssimo governo de João Paulo I, a eleição de João Paulo II sinaliza um Termidor eclesiástico. O pontífice opera uma intervenção duríssima em dioceses, seminários, instituições católicas, na busca de orientar a barca de Pedro para um catolicismo devocional. Como Pio XII, João Paulo privilegia a diplomacia conservadora, age com notórios ditadores como Pinochet, une-se a Reagan e outros. Episódios como sua participação no caso Irã-contras são reveladores do absolutismo por ele imposto à Igreja.

Some-se o desarrazoado do clero e dos leigos em termos culturais e pastorais, à política agressivamente conservadora de João Paulo II e teremos um desarmamento das hostes católicas em termos missionários e prosélitos. Com o pontífice polonês, a Igreja perde suas forças progressistas, ou pelo menos elas são silenciadas (o caso do cardeal Paulo Evaristo Arns, cuja diocese foi dividida de alto a baixo por Woytila). O combate do Vaticano à Teologia da Libertação consiste em uma técnica do Sumo Pontífice e de seus auxiliares (como o Cardeal J. Ratzinger, depois Bento XVI) para impor um modelo eclesiástico contrário ao Concílio. João Paulo II retoma o “catolicismo político” que domina a Santa Sé e vastos setores católicos nacionais no seu trato com o Estado e a sociedade. Em tal paradigma, interessa manter a mão segura sobre os fiéis, o controle interno do episcopado e dos teólogos e os alvos estratégicos da Igreja em termos planetários. É uma versão nova da antiga “raison de l’ Église” de onde brota a própria raison d’état.

Ao mesmo tempo, os católicos conservadores não mais sentem que entre eles e o corpo eclesiástico há uma unidade sólida, como a ocorrida no final do século 19 e inícios do século 20. As divisões de São Pedro estão submetidas à incerteza quanto aos rumos a serem tomados. É em tal momento que as formas protestantes, não as tradicionais, mas as desafiantes da ortodoxia eclesial (reformada ou católica) apresentam seu maior crescimento em setores próximos aos “negativamente privilegiados”.

Comunidades eclesiais de base

Já nos anos 60 a 80 do século passado, o frei Francisco Cartaxo Rolim, pesquisador das religiões novas e fundamentalistas do protestantismo mostra que o crescimento daqueles setores tem como premissa a ausência de muitos intermediários entre a piedade dos crentes e a ordem coletiva eclesial. Ele chama a atenção para o sentido de iniciativa, atribuído ao militante religioso protestante pentecostal, em contraste com a rigidez imposta na estrutura católica e confissões protestantes tradicionais. De outro lado, a igreja católica tenta mover seus adeptos da base para a militância com as Comunidades Eclesiais de Base. Deixando-se o desmanche de setores daquele movimento pela ação de João Paulo II (muitos animadores leigos e clérigos são perseguidos pelo Vaticano), as referidas comunidades coexistem com a estrutura antiga da igreja, estrutura vertical que privilegia os membros hierárquicos, a começar com os vigários das paróquias que acolhem as CEBs. Ao longo do tempo, tal problema é discutido nas próprias comunidades e nos estudos de intelectuais católicos. E. Hoornaert, em texto preparado para as discussões das CEBs, analisa a estrutura hierárquica da igreja, que tende a abafar a iniciativa missionária dos leigos e instâncias inferiores do clero. Hoornaert indica de modo gráfico o leigo católico no mais baixo escalão da pirâmide religiosa, ente passivo movido pelo clero:

Bispo
Padre
Leigo

Do bispo ao leigo, o padre é uma “correia de transmissão”. Para o máximo de atividade e iniciativa, os bispos; rumo ao mínimo, os leigos. Assim, torna-se muito grande o risco de fazer das CEBs apenas celeiros dinâmicos de clericalismo. Hoornaert apresenta, para atenuar tal falha, outro modelo de organização católica. Nele temos a seguinte forma:

bispo
leigo
padre

O padre, então, é destituído do papel de centro religioso (o culto) para se tornar um traço de união dos leigos com a igreja. O padre apenas articularia as relações comunitárias.
Com o advento de João Paulo II e de uma Hierarquia definida pela raison d’État em consonância com a raison de l ‘Église (tal foi o sentido da Realpolitik católica sob aquele Pontífice), a verticalidade que põe o leigo no mais baixo plano da instituição é retomada com rigor. O signo eclesiástico no Concílio Vaticano II, sob João XXIII e ainda Paulo VI, é o de uma abertura ao diálogo com o mundo. Sob João Paulo II muros espirituais são edificados quase ao mesmo tempo em que o Muro de Berlim é destruído. Livre do comunismo, a Santa Sé pratica uma política diplomática de pleno acordo com as premissas de Ronald Reagan, Pinochet e similares. Se existem teólogos e sociólogos católicos que, ainda sob João Paulo I, sonham com uma igreja democrática ou mesmo socialista, João Paulo II desmente tais devaneios. Com ele, o fiel volta à passividade e toda iniciativa cai novamente nas mãos do clero e da Hierarquia.

Seria um milagre se, com tamanha perda de iniciativa dos leigos, a igreja Católica deixasse de perder fiéis para igrejas e seitas de origem protestante que não apenas valorizam o laicato, mas dele fazem um meio eficaz de missão e atividade prosélita. Não é o caso, aqui, de fazer uma história do protestantismo no Brasil. E também não há espaço e tempo para efetuar uma crônica das igrejas pentecostais e messiânicas surgidas nas últimas décadas. Vale refletir sobre as características de uma delas, a Universal do Reino de Deus, instaurada por Edir Macedo. Dentre as várias confissões que ocupam a cena política, trata-se da mais ativa e bem-sucedida.

O fundador do empreendimento tem uma história de sucessos no mercado. Em seus trabalhos profissionais anteriores à sua vida religiosa, operou com matemática, estatística e outros meios para aferir números sobre o social. Ele usa técnicas eficazes de administração empresarial. Uma nota pequena, que une sentido de oportunidade com a ocupação do espaço. Certo dia em Bauru (SP), visito a matriz católica em dia de semana. Para chegar às portas do templo é preciso subir muitos lances de escada. O visitante encontra a igreja fechada com cartazes indicativos de horários para o atendimento e outros avisos. Na rua situada atrás da sede católica há uma Universal do Reino de Deus. A casa fica no plano da calçada, nenhuma dificuldade para o acesso. As portas abertas guardam dois fiéis que convidam os transeuntes para a entrada. Só tal comparação mostra a diferença entre a prática do catolicismo e a da igreja nova. Além de usar o espaço de modo sagaz, os pastores movem crentes como pregoeiros da religião, acolhendo todo e qualquer um dos que habitam a cidade.

Universal ataca a igreja católica

Uma organização simples e rápida ordena a praxis dos militantes pentecostais na Universal. A hierarquia conta com bispos, pastores, obreiros distribuídos pelos centros urbanos, sobretudo nos que contam maior número dos “negativamente privilegiados”, para usar a terminologia weberiana. Com agudeza de espírito, para quem opera em país onde a desigualdade econômica e política é escandalosa, a doutrina assumida segue a trilha da esperança na prosperidade, vinculada à doação integral do fiel à causa da igreja. Em atos e propaganda que, para os católicos e protestantes tradicionais beiram a simonia, a salvação, a cura, o enriquecimento, o consumo de mercadorias caras, são prometidos desde que os dízimos apareçam nos cofres, generosos. É como se o monge Tetzel tivesse reencarnado hoje, em vestes pentecostais, sem nenhum Lutero para lhe fazer frente.

A Universal ataca com dureza e constância a igreja católica, inclusive com propaganda obscena. Em programas seus de TV são trazidos testemunhos, nunca revistos pelas autoridades civis, de supostas freiras que teriam fornicado com padres assassinando rebentos, enterrando-os nos muros conventuais, etc. Nota-se o abuso dos libelos muito correntes no século 18, com imaginário escandaloso feito para persuadir os católicos de que sua religião, além de idólatra (recorde-se o famoso “chute na santa”) é apodrecida moralmente. Mas, a bateria de ataques não se limita ao catolicismo. Ela se volta contra a umbanda, o kardecismo e, mesmo, outras confissões protestantes que não seguem as palavras de Macedo. A intolerância é norma seguida por bispos e pastores, ampliada pelos crentes. Toda intolerância é unida ao fervor, quanto mais certeza da verdade, mais o crente assume missões de conquista e para expulsar os diferentes. Nos últimos tempos, manifestações de intolerância brutal ocorrem contra os seguidores da umbanda. O risco dos atos cai todo sobre o crente, os pastores se eximem e, mesmo, lançam proclamações de inocência. Algo similar ocorre com os supostos milagres. As delegacias de polícia brasileiras estão plenas de boletins de ocorrência nos quais os crentes desiludidos reclamam milagres não ocorridos, mesmo após doações, não raro de grande porte, para a igreja. Os pastores, é quase regra, sempre afirmam ter feito apenas uma benção e um pedido ao ser divino. O resto ficaria por conta da fé praticada pelo crente. Um ponto grave reside no chamado “Desafio a Jesus”. O desempregado entrega aos pastores cheques pré-datados e, assim, “desafia Jesus” para conseguir um posto de trabalho. Casos vieram à tona de cobrança, inclusive em órgãos de defesa do crédito, dos referidos cheques. Enfim, há toda uma sequência de fatos que fariam as delícias de Erasmo de Rotterdam, militante intelectual contra o charlatanismo milagreiro no Renascimento, ou de Voltaire.

Ao dar prosseguimento à tradição norte-americana do evangelismo televisivo e radiofônico, a Universal consegue uma força expansiva incomum, mesmo para as demais tendências pentecostais. Ao adquirir a Rede Record, um quartel general permanente é assegurado para a pregação e ataques às demais religiões. Gradativamente, vem à forma uma técnica usada desde tempos imemoriais para atrair fiéis: templos cada vez mais amplos e luxuosos, verdadeiras catedrais exibem poder e força aos crentes alistados e candidatos. O Templo de Salomão é mimesis do que fez a igreja católica em milênios. Mas, a burocracia simplificada e muito eficaz não deixa aqueles monumentos vazios. Eles são usados sempre para os cultos, as pregações, a coleta dos dízimos.

Com a imitação dos grandes templos católicos, vem uma liturgia que assume sinais e gestos oriundos do catolicismo, do judaismo, até mesmo da umbanda e do espiritismo. Tal performance dá ao crente jejuno o conforto de encontrar práticas por ele conhecidas, mas transfiguradas e postas como lícitas. Com o Templo de Salomão fica patente tal escolha, pastores e bispos usam parâmentos judaicos que recordam de modo oblíquo a filiação no novo cenáculo ao antigo, destruído na antiguidade israelense. Macedo e assessores reintroduzem aspectos abandonados pelo protestantismo, restaurando inclusive signos imagéticos, algo abolido na Reforma e atenuado na igreja católica após o Vaticano II. O ambiente do culto mostra faces do sagrado, hierofanias ocorridas nos templos da Universal.

Com tais inovações eficazes para o crescimento do rebanho, a Universal consegue mover seus adeptos em todos os sentidos. O mais grave é o político. Como é natural, o aumento do número de crentes com título de eleitor atrai políticos de todos os coloridos ideológicos. Quando preso, acusado de crimes graves, Edir Macedo tem o apoio de Luiz Inácio Lula da Silva, Aloysio Nunes e outros que não pertencem ao espectro da direita. Mas, também conservadores e direitistas apreciam a disciplina da igreja, a qual conta com o sentido de iniciativa dos seguidores. Meio rápido de adquirir votos, a proximidade de bispos e pastores ajuda políticos e igreja. Prestígio repartido, os sucessos nas urnas trazem prosperidade a candidatos, mesmo os que não pertencem às hostes de Macedo.
Dispondo, pois, de ampla rede de TV e rádio, jornais impressos que ampliam sua circulação em épocas eleitorais (no Brasil, quase permanentes), além do apostolado pessoal e virtual (via internet), a Universal é sólida base para qualquer candidatura aos cargos públicos. O partido político que serve como braço secular da igreja é o PRB. Essa agremiação foi esteio do Partido dos Trabalhadores nos governos Luiz Inácio Lula da Silva, quando o vice-presidente da república pertence ao PRB, e de Dilma Rousseff. Pouco antes do impeachment que afasta a mandatária, a Universal e o PRB rompem com o seu governo, agraciados pela administração Temer com cargos e benefícios.

Importa sublinhar o elo entre políticos proeminentes e os quadros da Universal. Em todas as ocasiões importantes para a igreja, líderes de quase todos os partidos nacionais se apresentam. Nas eleições, pactos entre bispos e pastores, com lideranças políticas, são assumidos. No primeiro dia do Templo de Salomão se apresentam para il bacia mano praticamente todos os poderes da república, a presidente, o governador do estado de São Paulo, etc. Senso de oportunidade política não rende apenas para os candidatos à permanência nos cargos ou à sua primeira investidura. A própria presença conspícua de pessoas com prestígio amplo abrilhanta, junto aos fiéis e alheios, a imagem de vencedora atribuída à Universal.

Não tem sido levado em conta com afinco, entre acadêmicos, o livro lançado em 2008 por Edir Macedo. Naquele volume, que norteia os atos políticos da Universal, o autor afirma ser possível e necessário que ela chegue à maioria dos poderes estatais. “Tudo é uma questão de engajamento, consenso e mobilização dos evangélicos. Nunca, em nenhum tempo da história do evangelho no Brasil, foi tão oportuno como agora chamá-los de forma incisiva a participar da política nacional”. Dentre as teses enunciadas por Macedo temos a seguinte: “A potencialidade numérica dos evangélicos como eleitores pode decidir qualquer pleito eletivo, tanto no Legislativo, quanto no Executivo, em qualquer que seja o escalão, municipal, estadual ou federal”. No mesmo tempo em que o volume é publicado, o sobrinho de Macedo, Marcello Crivela, se candidata à Prefeitura do Rio de Janeiro pelo PRB. Naquele ano, havia a expectativa de aumentar consideravelmente o número de parlamentares ligados à Universal e às igrejas congêneres. Em 2007, o PRB, de fato, é o partido que mais cresce no país. Tal ponto concede à Universal um instrumento eficaz de luta política.

Universal quer a hegemonia no Estado

Assim, não surpreende que em 2016, finalmente, Crivella seja eleito para governar a cidade do Rio de Janeiro. Ele conta com zelosa militância de fiéis que acreditam ser a sua salvação terrestre prometida em termos de riqueza e poder materiais. A própria estrutura da igreja os leva a uma atividade vigorosa, ao contrário dos leigos católicos e protestantes clássicos. Além disso, a eficaz rede televisiva e radiofônica, além da mídia impressa, é poderoso meio de propaganda das candidaturas da própria Universal ou de aliados. É em busca de semelhante benefício que políticos da chamada esquerda ou da suposta direita brasileira se achegam a Edir Macedo, na esperança de ganhar apoios tácitos e estratégicos, nos parlamentos ou eleições. Desde 2008, a Universal conta com receituário político que ensina a chegar à hegemonia no Estado. É a primeira vez na história brasileira que o protestantismo deixa a condição de minoria perseguida e passa à conquista planejada e racional da maioria para o comando do poder público.

Os planos da Universal, com a vitória de Crivella em 2016, começam a se tornar realidade. Mas, para que tal coisa ocorra, é preciso que a igreja católica, as confissões protestantes clássicas, as correntes protestantes de esquerda, percam seus comandados e não apresentem alternativas à marcha pentecostal sob a liderança atual de Macedo. Em política, como no proselitismo religioso, tudo é dinâmico. Se alguns setores ganham potência, é porque os adversários a perdem. Tal regra, que parece óbvia, vem do ensino do grande Maquiavel interpretado por J.G. Fichte: “quem não cresce, diminui enquanto outros crescem”. Para que o crescimento da Universal tenha um limite, importa aos demais setores (católicos, umbandistas, espíritas, liberais, progressistas e outros) arregimentarem forças, imaginarem cenários futuros e, sobretudo, se unirem não apenas no plano espiritual, mas, principalmente, na ação política. Tal perspectiva ainda não aparece na vida pública brasileira.

Compartilhar

email

Comentar

*Preenchimento obrigatório