Edição número 27

Ano 7 - número 27

outubro-dezembro 2014

As manifestações populares de junho de 2013 trouxeram à tona um mal-estar na sociedade brasileira. Aos poucos, os cientistas sociais e políticos, em debates e análises acadêmicas, em livros que já estão surgindo sobre o tema, explicam o que está por trás da insatisfação reinante nas classes sociais – dos ricos às classes médias e... Leia o artigo

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Artigos desta edição

Regina Novaes

Mal-Estar, Medo e Mortes entre Jovens das Favelas e Periferias

Desde os anos de 1990, têm surgido entre jovens iniciativas de resistência cultural e política, com base territorial. Questionando a situação de se- gregação espacial, redes, grupos e movimentos juvenis afirmam o pertencimento local, denun- ciam injustiças e se tornam novos canais de par- ticipação. A geografia da violência revela desi- gualdades sociais, disparidades regionais e se- gregações urbanas. Esses problemas estão liga- dos a demandas de distribuição de renda, de acesso à educação de qualidade, de oportunida- des de trabalho, de acesso a equipamentos ur- banos no local de moradia dos jovens, assim como de acesso a aparato policial constante e bem preparado. Sem uma ampla e profunda re- forma do sistema policial brasileiro, persistirá este “mal-estar” de viver em um país no qual a morte cotidiana de jovens negros não causa es- panto e comoção.

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Jessé Souza

A Cegueira do Debate Brasileiro sobre as Classes Sociais

A opacidade da percepção das relações entre as classes no Brasil, no mundo da política, pode ser demonstrada a partir da análise das manifestações de junho de 2013. A grande fraude e a mentira das Jornadas de Junho são a impressão de que o “vilão” está no Estado e a “sociedade”, engajada e politizada, é o “mocinho”. Quem até agora ganhou e colheu frutos com a “primavera brasileira” foram as forças mais conservadoras do país. No Brasil, uma classe privilegiada, cujo interesse primeiro é na reprodução do mundo como ele é, adora se imaginar como “radical” e agente da mudança. Uma classe social, como a classe média brasileira, que explora os excluídos sociais em serviços domésticos, para a reprodução indefinida de seus privilégios, pode “posar” de humana, corajosa e virtuosa, ao sair às ruas para condenar sempre um “outro” que não nós mesmos. O privilégio, afinal, precisa ser justificado ou tornado invisível para se reproduzir.

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Eugênio Bucci

A Classe, o Nome, o Caos

É provável que o mal-estar da sociedade também se manifeste na forma de um mal-estar da imprensa. Para muitos, o jornalismo está em crise. Mas, o discurso jornalístico é, por definição, um discurso da crise. O que traz até alguns efeitos colaterais benéficos: o mal-estar da imprensa funciona como um pretexto de bem-estar para a democracia. A crise é da indústria jornalística, que não sabe mais como fazer dinheiro; não é do relato jornalístico, que aumenta dia a dia o seu público leitor. Para dar conta das “coisas que estão no mundo”, a imprensa não precisa ter editorias chamadas “sociedade”, “coisas do mundo”. A imprensa abriu seus olhos às “novidades” comportamentais. Há uma infinidade de novas investidas do que se convencionou denominar “jornalismo pós-industrial”, que vai do “Mídia Ninja” ao “Pro Publica”, além de sites jornalísticos como “El Puercoespín”, “Cíper” e “Pública”, sem falar nas múltiplas reinvenções de sites como o do próprio “The New York Times”.

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Renato Janine Ribeiro

Mal-Estar na Sociedade Brasileira

O que, no mal-estar atual da sociedade brasileira, depende da política e de seus atores? E o que depende da crescente individualização, da maior liberdade pessoal, do enfraquecimento do laço social? Temos um mal-estar da sociedade inteira ou ele está concentrado nas camadas sociais mais abonadas? O Estado brasileiro não foi capaz, ao contrário dos desenvolvidos, de fornecer educação, saúde, segurança e transporte públicos de qualidade. Porém, mesmo resolvidos estes problemas, perdurará a contradição entre uma sociedade cada vez mais afeta à liberdade individual e, ao mesmo tempo, absolutamente necessitada de laços, de valores éticos, de disposição ao convívio com o diferente, sem os quais a própria vida social poderá sucumbir.

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LiLia KatRi moRitz SchwaRcz

A Culpa é Sempre dos Outros

Na sociedade brasileira existe inclusão com muita exclusão social? A cada semana, morrem 50 mil pessoas no Brasil, sendo a maioria das vítimas homens, negros e jovens. Mortes na pe- riferia não afetam nossa sensibilidade, enquan- to delitos e acidentes nos bairros centrais são noticiados com grande comoção dos leitores. Nos bastidores dessa desproporção emocional, persistem as nossas instituições que nasceram e, teimosamente, mantêm-se frágeis: a polícia que amedronta, mas não oferece segurança; a popu- lação prisional que continua aguardando julga- mento; as cidades que se organizam a partir de estruturas desiguais. Diante do incremento da violência, que assola sobretudo as grandes ci- dades brasileiras, a saída mais fácil é colocar a culpa nos atos alheios.

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Luiz Carlos Bresser-Pereira

O Mal-Estar entre Nós

Dada a baixa taxa de crescimento e a desindustrialização acelerada, está claro que é preciso repensar o projeto de desenvolvimento brasileiro e a coalizão de classes necessária para levá-lo adiante. O Ciclo Democracia e Justiça Social se esgotou. Não é possível continuar a basear a economia brasileira nos juros altos e, principalmente, no câmbio apreciado no longo prazo, que aumenta os rendimentos de todos e o consumo, ao mesmo tempo em que desestimula os investimentos. Não são apenas a quase estagnação econômica e a falta de qualquer projeto para superá-la que explicam o mal-estar das elites brasileiras. É também a ascensão da classe C ao consumo de massas, enquanto a elite – não os muito ricos, mas sua grande classe média tradicional – não viu sua renda aumentar.

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Simon Schwartzmann

As Instituições e o Mal-Estar na Sociedade

Existe uma crise do sistema representativo brasileiro e do papel das organizações sociais. Nossa democracia é frágil e ineficiente. Os governantes e suas burocracias funcionam mal, desperdiçam recursos, se submetem com facilidade a pressões de grupos de interesse e da opinião pública e negociam cargos e privilégios para se manter no poder. O sistema representativo brasileiro precisa ser profundamente alterado. As democracias modernas devem incluir formas adequadas de participação da sociedade (consultas e referendos). Não é possível satisfazer ao mesmo tempo todas as demandas e todos os grupos da sociedade. É preciso legitimidade que só um sistema representativo bem constituído e fundado em um ordenamento legal respeitado pode proporcionar.

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